O grupo rebelde Houthis, que controla parte do Iêmen e é aliado do Irã, reivindicou neste sábado (28/3) seu primeiro ataque direto contra Israel desde o início da guerra na Faixa de Gaza. A ação, confirmada tanto pelo grupo quanto pelas Forças de Defesa de Israel, representa uma escalada significativa no conflito regional, ampliando o arco de hostilidades que até então se concentravam principalmente na fronteira de Israel com o Líbano e nos ataques a navios no Mar Vermelho.
Em comunicado divulgado neste sábado, os Houthis afirmaram ter lançado “uma barragem de mísseis balísticos contra alvos militares israelenses sensíveis”. O grupo, que desde o início da guerra em Gaza vinha atuando indiretamente contra interesses de Israel e dos Estados Unidos no mar, agora elevou o nível de confronto ao atingir diretamente o território israelense. “As Forças Armadas do Iêmen, com a ajuda de Alá Todo-Poderoso e confiando em Alá, realizaram a primeira operação militar”, diz a nota do grupo xiita.
Analistas de geopolítica ouvidos pela reportagem apontam que a mudança de postura dos Houthis pode estar associada a um alinhamento mais direto com as estratégias do Irã, seu principal aliado na região. “O grupo vinha testando os limites da ação indireta com os ataques no Mar Vermelho. Agora, ao assumir um ataque contra o território israelense, os Houthis sinalizam uma disposição de atuar como frente ativa na guerra, o que pode representar uma nova dor de cabeça para a defesa antimíssil de Israel”, explica o professor de relações internacionais João Carlos Siqueira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Confirmação israelense e reação das Forças de Defesa
As Forças de Defesa de Israel (FDI) confirmaram o lançamento, informando que sistemas de defesa aérea foram acionados para interceptar o míssil disparado do Iêmen. Até o momento da publicação, não havia informações oficiais sobre o local exato do impacto ou se o projétil foi abatido antes de atingir o solo. O comunicado militar destacou que as defesas aéreas permanecem em alerta máximo em todo o território nacional.
O episódio ocorre um dia após o porta-voz dos Houthis, Yahya Saree, declarar que o grupo estava com “os dedos no gatilho para uma intervenção militar direta”. A fala de Saree, proferida na sexta-feira (27/3), foi interpretada por especialistas como um ultimato que agora se concretizou. O grupo xiita já havia demonstrado capacidade de atingir alvos a longa distância em ataques anteriores contra navios no Mar Vermelho e no Golfo de Aden, mas o alcance balístico até o território israelense exigia mísseis mais sofisticados.
O papel dos Houthis na guerra regional
Desde o início do conflito em Gaza, em outubro de 2023, os Houthis emergiram como um dos atores mais ativos no chamado “eixo de resistência” apoiado pelo Irã, ao lado do Hezbollah no Líbano e de milícias no Iraque e na Síria. Contudo, até então, o grupo concentrava suas ações no bloqueio de navios ligados a Israel e aos Estados Unidos no Mar Vermelho — uma rota comercial crucial —, o que gerou forte pressão internacional e levou os EUA a formar uma coalizão militar para proteger a navegação na região.
Agora, ao assumir um ataque direto contra o território israelense, os Houthis ampliam o espectro de ameaças enfrentadas por Israel, que já lida com os constantes lançamentos de foguetes do Hezbollah a partir do Líbano e com as operações terrestres na Faixa de Gaza. Analistas militares destacam que a defesa aérea israelense, embora considerada uma das mais avançadas do mundo, enfrenta o desafio de monitorar e interceptar ameaças provenientes de múltiplas frentes e distâncias variadas.
Raízes e alinhamento dos Houthis com o Irã
Os Houthis, que controlam a capital iemenita, Sanaa, e vastas áreas do país, surgiram na década de 1990 como um movimento de reivindicação da comunidade xiita zaidita no Iêmen. Ao longo dos anos, evoluíram para uma força militar estruturada, com capacidade de lançar mísseis balísticos e operar drones. Desde a intervenção militar liderada pela Arábia Saudita em 2015, o grupo consolidou sua posição como ator central no conflito iemenita e como aliado estratégico do Irã.
Há suspeitas recorrentes de que o Irã fornece armamentos avançados, tecnologia e treinamento aos Houthis, embora Teerã historicamente negue envolvimento direto. O próprio Hezbollah, o poderoso grupo xiita libanês, também é apontado como um dos responsáveis por auxiliar na capacitação militar dos rebeldes iemenitas. Essa rede de alianças transformou os Houthis em uma peça-chave na estratégia iraniana de projetar poder regional e pressionar Israel e seus aliados.
Impactos e perspectivas para o conflito
A confirmação do primeiro ataque direto dos Houthis contra Israel ocorre em um momento de crescente tensão no Oriente Médio, com a guerra em Gaza completando mais de um ano e meio e as negociações para um cessar-fogo ainda sem desfecho definitivo. O número de vítimas palestinas já ultrapassa 70 mil mortos, segundo fontes locais, e a região vive um dos períodos mais instáveis das últimas décadas.
Para especialistas, o novo front aberto pelos Houthis pode pressionar Israel a ampliar sua postura defensiva e, eventualmente, considerar ações retaliadoras contra alvos no Iêmen — o que aprofundaria ainda mais a guerra regional. “Estamos diante de um conflito que já não pode mais ser tratado apenas como um confronto entre Israel e grupos palestinos. A cada dia, novos atores entram em cena, e a capacidade de escalada militar de cada um deles só aumenta. O risco de uma conflagração regional de grandes proporções é mais real do que nunca”, avalia o analista de segurança internacional Marcos Azambuja.
Até o momento, o governo israelense não divulgou uma resposta oficial ao ataque, mas fontes da Defesa indicaram que todas as opções estão sobre a mesa. O episódio também deve repercutir nos esforços diplomáticos internacionais, que já tentavam conter a expansão do conflito para além das fronteiras de Gaza.
Fonte: Metrópoles
Redigido por Acre Atual







