O solo do Acre guarda segredos que podem reescrever capítulos da história das Américas. Uma pesquisa publicada na Revista Amazônia traz à tona uma questão que intriga a comunidade científica: por que as sociedades complexas que construíram os misteriosos geoglifos no atual território acreano desapareceram praticamente no mesmo período em que a civilização Maia entrou em declínio na Mesoamérica? O estudo, que ganhou novos contornos com o uso de tecnologia de ponta, investiga se eventos de escala continental podem ter dizimado essas duas civilizações simultaneamente.
Civilizações contemporâneas e um colapso misterioso
As evidências apontam que os construtores dos geoglifos amazônicos e os Maias atingiram seus respectivos auge entre 250 a.C. e 950 d.C. Por volta do século X, no entanto, seus grandes centros cerimoniais e urbanos foram abandonados. Embora não haja qualquer indício de contato direto entre esses povos, separados por milhares de quilômetros, a coincidência temporal do colapso levanta hipóteses fascinantes. Pesquisadores como o paleontólogo Alceu Ranzi e o arqueólogo Martti Pärssinen, que conduzem as investigações, consideram a possibilidade de eventos climáticos extremos de grande escala, que teriam afetado vastas regiões das Américas, ou até mesmo surtos de doenças pré-colombianas, como causas para o desaparecimento simultâneo dessas sociedades altamente organizadas.
A tecnologia revela um mundo oculto
O entendimento sobre a complexidade desses povos deu um salto gigantesco com o projeto “Desvelando o passado profundo”. Em maio de 2025, a iniciativa revelou 124 novos geoglifos no sul da Amazônia, concentrados principalmente no Acre e no município de Boca do Acre (AM). O grande responsável por essa descoberta foi o uso da tecnologia LIDAR (Light Detection and Ranging). Este sistema utiliza feixes de laser capazes de penetrar a densa copa das árvores e mapear o terreno com precisão, revelando formas geométricas perfeitamente delineadas que estavam invisíveis a olho nu. Entre os achados mais impressionantes está uma estrutura monumental que se estende por cerca de um quilômetro, considerada uma das maiores já registradas na região, evidenciando uma capacidade de planejamento e organização social até então inimaginável para a Amazônia pré-colombiana.
Sociedades organizadas e encontros cerimoniais
As estruturas, que datam de aproximadamente 1000 a.C. a 1000 d.C., apresentam formatos geométricos rigorosos, como círculos, quadrados e retângulos escavados com grande precisão. Para os pesquisadores, isso indica um nível avançado de conhecimento matemático. Mas qual era a função desses locais? Ao contrário do que se poderia imaginar, os geoglifos não funcionavam como aldeias permanentes ou fortificações militares. As evidências arqueológicas, como cerâmicas elaboradas e restos de grandes banquetes, sugerem que esses espaços eram principalmente centros cerimoniais. Grandes grupos se reuniam ali para realizar rituais, firmar alianças políticas, celebrar festividades e consumir bebidas fermentadas em eventos que reforçavam laços sociais e o prestígio de líderes. Os vestígios também apontam para a prática de jogos de bola com objetos de borracha maciça, que podiam chegar a 11 quilos, movimentados com pés e cabeça em arenas especialmente preparadas.
O próximo passo da ciência
Agora, os cientistas se dedicam à datação por Carbono-14 para refinar a cronologia da ocupação e do abandono desses sítios. O objetivo é compreender melhor o modo de vida dessas comunidades, associadas ao povo Aquiry, e testar as hipóteses sobre os fatores que levaram ao seu repentino desaparecimento. Para os povos indígenas que hoje habitam a região, como os Apurinã, esses locais, chamados de kymyrury, são considerados moradas sagradas de ancestrais e espíritos da natureza. As estradas antigas que conectavam os geoglifos são vistas como caminhos que ligavam o mundo humano ao espiritual. A pesquisa, portanto, não apenas ilumina um passado distante, mas também estabelece uma ponte com as tradições e a memória dos povos originários, revelando a profundidade e a complexidade da história amazônica muito antes da chegada dos europeus.
Fonte: ContilNet Notícias
Redigido por Acre Atual







