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“Muitos acham que é como um jogo”: soldados brasileiros na Ucrânia relatam choque com a realidade da guerra

Combatentes contam ao UOL sobre salários atrasados, maus-tratos, tortura e a dura rotina no front. Perfil dos recrutados mudou: motivação agora é financeira e por status, não ideológica.
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Soldados brasileiros durante treinamento em alojamento na capital da Ucrânia, em Kiev Imagem: Arquivo pessoal cedido ao UOL

A quatro anos do início da invasão russa, a guerra na Ucrânia se tornou uma realidade brutal para dezenas de brasileiros que cruzaram o oceano para lutar. Longe da imagem romantizada ou da promessa de uma experiência heroica, o que eles encontram é um cenário de sofrimento, abusos e morte. Relatos obtidos pelo UOL mostram como soldados brasileiros relatam ilusão na Ucrânia e comparam guerra a jogo, subestimando os perigos e caindo em uma teia de recrutamento que, muitas vezes, esconde condições degradantes.

O Choque de Realidade

Um dos brasileiros ouvidos, identificado como Vicente (nome fictício), de 37 anos, sintetiza o sentimento de muitos. “Muitos acham que é como um jogo e, quando chegam aqui, veem que é vida real.” Comerciante na área de tecnologia no Brasil e com passagem pelo Exército, Vicente foi para a Ucrânia em agosto de 2025. Hoje, ele afirma se arrepender de não ter buscado mais informações antes de ir. “Sempre quis ser militar, sempre gostei de histórias de guerras, por isso decidi me candidatar. Muitos vêm para cá com o sonho de ser militar, de participar de uma das guerras mais difíceis”, conta.

A dura realidade, porém, é muito diferente do sonho. Vicente descreve um cenário de impotência diante da tecnologia russa. “No campo de batalha, não dá para vencer as máquinas russas: são drones, artilharias, robôs e metralhadoras. É uma guerra tecnológica. Ficamos muito vulneráveis nos campos de batalha. Se tivermos sorte, ficamos vivos.” A percepção se confirma na discrepância entre o imaginário e a realidade letal das trincheiras.

Maus-Tratos, Salários Atrasados e Mortes

Além do perigo constante no front, os brasileiros enfrentam problemas com seus próprios recrutadores e superiores. Vicente afirma que está com o salário de quatro meses atrasado e que presenciou amigos serem espancados por soldados brasileiros e ucranianos durante os cursos de formação. Outros dois brasileiros, recrutados pela empresa Advanced Company, relataram ao UOL que sofreram agressões, tiveram salários atrasados e passaportes confiscados por meses.

Os relatos de maus-tratos são chocantes. “Colocaram arma na cara, deram chutes, murros, coronhadas, fizeram soldados ficarem sem roupa no frio de 15, 20 graus negativos. Eles torturavam, espancavam, quebravam nariz dos soldados e celular dos recrutas, arrancavam unhas e colocavam objetos em partes íntimas”, descreve Vicente. O geógrafo Tito Lívio Barcellos Pereira, especialista no conflito, explica que o recrutamento mudou: hoje, a motivação é mais financeira e por status do que ideológica. As consequências dessa mudança e do recrutamento afoito são trágicas: ao menos 22 brasileiros já morreram no conflito e 44 estão desaparecidos, segundo balanço de autoridades ucranianas enviado ao governo brasileiro. Histórias como a de Vicente expõem a face mais cruel da guerra para os estrangeiros que nela se envolvem.

Fonte: UOL Notícias

Redigido por Acre Atual

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