ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Na mesma sexta (23) em que Flávio Bolsonaro (PL) achincalhou Lula (PT) por ter “nove dedos” no debate da Globo, sua colega de partido Ana Campagnolo publicou uma foto que aludia à mão do presidente sem o mindinho, perdido num acidente de trabalho quando ele era um jovem torneiro mecânico.
A parlamentar mais bem votada para a Assembleia Legislativa de Santa Catarina, autodeclarada “conservadora, cristã e antifeminista”, inseriu na imagem as tarjas “ideologia de gênero”, “aborto”, “legalização das drogas” e “repressão à nossa fé”. Abaixo, a frase “cristão não vota em candidato indicado por gente que sempre defendeu isso!”.
Na legenda, ela diz que a cada quatro anos reaparecem os mesmos personagens com “a máscara da candura”, todos “muito ‘simpáticos’ e ‘empáticos’, como se não tivessem passado a maior parte de suas vidas públicas […] tratando nossos valores como sinônimo de atraso”.
A peça convocava pautas morais para defender que cristãos rejeitem candidatos associados à esquerda, numa estratégia clara: apresentar o voto como uma escolha de fidelidade religiosa.
É o tipo de conteúdo que saiu da berlinda nesta eleição presidencial para ser explorado lateralmente por aliados de Flávio Bolsonaro (PL), a exemplo do deputado eleito Lucas Pavanato (PL-SP), com sua oposição estridente a pautas LGBTQIA+, e a futura deputada estadual Eduarda Campopiano (PL-SP), que vai espessar o caldo antifeminista nos parlamentos estaduais.
Eduarda Campopiano (PL) em foto de campanha publicada com mensagem de apoio a Pavanato, Derrite, André do Prado, Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro (PL) Divulgação/Instagram Seis pessoas vestindo camisetas amarelas e azuis com símbolos e números de campanha posam sorrindo para a câmera em área externa. Ao fundo, grande multidão se estende pela rua em evento político. Imagem pequena ** O elemento moral existiu e não foi pequeno na campanha principal, como a promessa de Flávio de punir abusadores sexuais com castração química. Mas a pauta moral clássica, como os temas levantados por Ana Campagnolo, ficou em segundo plano.
O que ficou mais saliente foi o discurso da guerra espiritual, que transfere a disputa política para um confronto entre o bem e o mal, pintando o triunfo do adversário como ameaça existencial.
Levantamento de perfis digitais religiosos, feito em parceria pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque, deixa esse cenário mais claro. Nos dias que antecederam o segundo turno, houve forte mobilização para campanhas de “jejum e oração pelo Brasil”, incentivadas por influenciadores como Bella Falconi como arma para liberar o país “de uma ideologia demoníaca”.
A religiosidade pegou vias transversais a essa avenida eleitoral, com o candidato do PL fazendo o tour de praxe em igrejas e testando os limites da Justiça Eleitoral, que proíbe pedido de voto nos templos. Em agosto, em novo aceno a evangélicos, Flávio prometeu decretar “que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” como um dos atos inaugurais de sua Presidência.
A bancada evangélica se expandirá, puxada por influenciadores como Pavanato e Nikolas Ferreira (PL-MG), campeões de voto no placar geral. Cresceram também ataques a religiões de matriz africana, retratadas como linha auxiliar da força das trevas nessa batalha espiritual evocada pelo bolsonarismo.
“A gente não ora o Pai-Nosso à toa”, Nikolas escreveu num post em que reproduz o vídeo de um ato pró-Lula, Tambores pela Democracia, promovido por umbandistas e candomblecistas na quinta (22). Na gravação, manifestantes cantam sobre “manter Bolsonaro amarrado num cipó”.
Ao contrário do que sugerem bolsonaristas, essa expressão vem da tradição da Jurema, religião afro-indígena com origem nordestina, e tem a ver com “invocar proteção espiritual e o afastamento de forças que considera ameaçadoras”, e não “desejar literalmente a morte de uma pessoa”, diz Carolina Rocha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião) e autora de “A Culpa é do Diabo: O que Li, Vivi e Senti nas Encruzilhadas do Racismo Religioso”.
A reta final da campanha foi marcada também por apoios de última hora de líderes evangélicos de quilate nacional que ainda não haviam respaldado a candidatura de Flávio. Os dois maiores ministérios da Assembleia de Deus, Belém e Madureira, explicitaram a preferência pelo senador.
O missionário R.R. Soares nunca escondeu sua simpatia por Jair Bolsonaro (PL), mas também não havia falado nada publicamente a favor do primogênito dele nesta eleição. Quebrou o silêncio na sexta, num post calibrado para não espinafrar Lula.
“Não que eu tenha algo contra o outro, mas ele já governou tanto tempo, tem que deixar a mocidade começar agora. Nós já estamos de partida para a eternidade”, disse o líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, pioneira no uso massivo do televangelismo.
Aos 78 anos, dois a menos que Lula, Soares não conseguiu eleger nenhum dos cinco filhos que lançou para cargos no Legislativo. Com a atenção agora voltada à disputa presidencial, incentivou o voto idoso e disse que escolheria Flávio porque ele “é novo, é da família do Bolsonaro, que a gente tem o maior respeito por ele”.
Flávio começou a campanha sob ressalvas dessa turma. Muitos dos pastores que agora abraçam sua candidatura duvidavam de sua capacidade de reproduzir o apelo eleitoral do pai e temiam que suspeitas de corrupção se tornassem um passivo político –como de fato ocorreu, ainda que com menos aderência do que o imaginado a princípio.
A preocupação se voltava sobretudo aos escândalos de ordem moral. São notícias como a de que Flávio teria participado de uma festa numa lancha acompanhado de lobistas e prostitutas em plena pandemia e recebido presentes de luxo, como um relógio Rolex avaliado em R$ 300 mil.
Líder do PL na Câmara e ex-presidente da bancada evangélica, Sóstenes Cavalcante diz que, ainda que emergissem evidências concretas de qualquer malfeito, os irmãos de fé perdoariam o convertido Flávio. “O evangélico é a igreja que cura de todos os doentes espirituais. E até agora não existe nada de prova, só boataria. Ele nunca deixou de esconder que teve um período em que se distanciou da fé.”
Antes, portanto, de o senador se converter evangélico “de verdade”, como ele já colocou. O processo teria começado em 2022 e se consolidado com seu batismo na Comunidade das Nações, do bispo JB Carvalho, o mesmo que anos atrás defendeu derrubar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira nacional.
A santa católica virou alvo de desgaste para Flávio a dias do primeiro turno. Já sob suspeita de que privilegiaria sua religião num eventual governo seu, o candidato teve que reagir ao boato de que resgataria um projeto de lei para retirar de Aparecida o status de padroeira. Nunca disse nada nesse sentido.
Com informações da Notícias ao Minuto








