DANIELA ARCANJO
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – Quatro dias após o início dos rumores de que Flávio Bolsonaro (PL) embarcaria em um avião na Argentina para fugir rumo aos Estados Unidos -algo que só se concretizaria na madrugada de quarta-feira (28)-, o nível de envolvimento do governo de Javier Milei na operação ainda é incerto.
Até agora, a gestão argentina tem justificado a entrada do senador, derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais do último domingo (25), com o fato de que ele apresentou documentação de viagem válida e não era alvo de nenhum alerta emitido pela Interpol, a Organização Internacional de Polícia Criminal.
O senador fugiu após ser notificado do cancelamento de seus passaportes pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, e não entregou os documentos no prazo. De acordo com registros em órgãos americanos e argentinos, ele usou o passaporte italiano para se apresentar ao país vizinho e o diplomático brasileiro para entrar nos EUA.
O jato privado usado por Flávio a partir de Porto Iguaçu era operado pela Baires Fly S.A., empresa citada em uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo contratos públicos de medicamentos e insumos médicos na Argentina. O suposto esquema de corrupção causou, em 2025, escândalo no governo Milei e levou à demissão de Diego Spagnuolo, ex-diretor do órgão que já foi advogado e pessoa próxima do político.
Segundo o jornal argentino El Clarín, Santiago Caputo, assessor de Milei, esteve na terça-feira (27) à noite em Porto Iguaçu, a partir de onde Flávio fugiu. De acordo com a publicação, Caputo monitorou a operação de fuga desde o início, quando empresas vinculadas à Embaixada dos Estados Unidos teriam contratado o voo da Baires Fly.
Para participar da operação, ele teria sido transportado por uma camionete conduzida por Orlando Ignacio Palacios, assessor da Secretaria-Geral da EBY (Entidade Binacional de Yacyretá, órgão administrativo da hidrelétrica compartilhada entre Argentina e Paraguai). O veículo era acompanhado por outro, conduzido por Jorge Omar Waisman, chefe de Segurança e Informação da mesma entidade.
Ambos os carros foram identificados durante a madrugada de quarta em meio a uma blitz em uma rodovia argentina que conecta Porto Iguaçu à região de Buenos Aires.
Ao jornal La Nacion Caputo negou as acusações. Opositores de Milei apresentaram nos últimos dias uma enxurrada de iniciativas legislativas e judiciais exigindo explicações sobre o papel da gestão na fuga de Flávio, investigado por crimes como lavagem de dinheiro no Brasil.
Medidas relacionadas à convocação de ministros para prestar explicações ao Congresso, como os projetos dos deputados Pablo Juliano, Maximiliano Ferraro e Agustín Rossi, por exemplo, precisam passar por uma comissão liderada por um correligionário de Milei e na qual o governo tem maioria. Depois, os opositores ainda precisam conseguir maioria na Câmara -onde o partido do liberal também tem a maior bancada.
Mesmo que consigam a façanha, aliados de Milei têm o precedente de não comparecer ao Congresso. Em abril do ano passado, o Legislativo aprovou a convocação dos então chefe de gabinete, Guillermo Francos, e ministro da Justiça, Mariano Cúneo Libarona, além do ministro da Economia, Luis Caputo. Apenas o primeiro apareceu.
Houve também denúncias penais de mais de um deputado. Uma delas foi apresentada por Marcela Pagano, ex-correligionária de Milei. Na quarta, a legisladora pediu que a Justiça de Porto Iguaçu investigasse a ocorrência dos supostos delitos de tráfico ilegal de pessoas, abuso de autoridade e descumprimento dos deveres do funcionário público durante o ingresso de Flávio na Argentina.
O processo teve um desenrolar breve: o Tribunal Federal de Misiones, província onde fica Porto Iguaçu, arquivou a denúncia nesta sexta (30), em menos de 48 horas. Com base em relatórios da Interpol e do órgão de migrações argentino, o procurador federal Fabián Ramírez, responsável pelo caso, concluiu que não houve crimes ou ilegalidades na entrada do senador e foi seguido pela procuradora Silvia Gutiérrez, que arquivou o caso.
Há outro processo em curso, porém, relacionado a duas denúncias. A primeira é do deputado Esteban Paulón contra Milei, seu chanceler, Pablo Quirno, a ministra de Segurança argentina, Alejandra Monteoliva, e Santiago Caputo, estrategista político e braço direito do ultraliberal que, segundo a imprensa argentina, esteve em Porto Iguaçu para ajudar Flávio.
Paulón os denunciou por suposto encobrimento agravado, crime por “ajudar alguém a eludir as investigações da autoridade ou a subtrair-se à ação desta”, de acordo com o Código Penal argentino, que prevê prisão de seis meses a três anos para esse delito, sendo que ser funcionário público é considerado um agravante.
A segunda é de Gabriel Solano, que tenta responsabilizar Milei e “todos aqueles funcionários públicos -integrantes da área de inteligência, segurança e/ou diplomacia- que, no marco de suas funções ou mediante um plano sistemático, tenham sido coautores, cúmplices, instigadores ou participantes” dos delitos de encobrimento agravado, abuso de autoridade, violação dos deveres de funcionário público e peculato.
Esse caso, que tramita em um Tribunal Federal de Buenos Aires, apura se houve mobilização de recursos públicos na fuga de Flávio, possibilidade que circula na imprensa argentina.
Com informações da Notícias ao Minuto








