Próximo presidente assumirá país com desemprego em baixa, mas sob forte pressão de juros altos

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Aumento de produtividade e revisão de barreiras comerciais são apontados como caminhos para avanço da renda/ Foto: Reprodução

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O governante eleito neste pleito para comandar o Palácio do Planalto entre 2027 e 2030 receberá um quadro econômico marcado por contrastes diretos. De um lado, a taxa de desocupação atinge a mínima histórica e o saldo da balança comercial permanece favorável. De outro, a atividade perde ritmo sob o impacto prolongado de juros elevados, endividamento das famílias e gargalos de produtividade.

Analistas econômicos apontam que a sustentabilidade do crescimento nos próximos anos dependerá da capacidade do novo governo de articular reformas fiscais no Congresso e reconstruir pontes políticas para reestabelecer a confiança do mercado.

Pano de fundo político e reconstrução de base

A transição econômica exige, antes de tudo, um arranjo político estável. A economista Zeina Latif, sócia-diretora da Gibraltar Consulting e professora do Insper, afirma que a construção de governabilidade é condição prévia para a execução de qualquer agenda de reformas.

“A primeira coisa, antes de falar diretamente da economia, é o pano de fundo que precisa ser construído na direção de pacificar o país, de criar uma base aliada com participação no governo e de trazer confiança aos agentes econômicos”, destaca Latif.

Desafio fiscal e o peso dos juros

O nível da taxa básica de juros é apontado por especialistas como o principal gargalo imediato. A Selic, que alcançou o pico de 15% ao ano e se mantém em 13,75%, figura entre as mais elevadas do mundo em termos reais. A política monetária rigorosa do Banco Central busca conter as pressões inflacionárias e reconduzir os índices à meta de 3%.

Para abrir espaço para cortes sustentáveis na taxa básica, economistas destacam a urgência em reequilibrar os gastos públicos e gerar superávits primários contínuos, estancando a trajetória da dívida pública.

Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), avalia que o ajuste não suporta medidas drásticas e pontuais. “Não poderá ser do tipo ‘choque’. Será preciso um programa de recuperação para um período maior, com resultados colhidos desde o início e aprovado pelo Congresso”, explica.

Salto aponta áreas prioritárias para revisão orçamentária:

  • Reavaliação de indexações e vinculações constitucionais;

  • Pente-fino em subsídios tributários e financeiros;

  • Combate a supersalários no funcionalismo público;

  • Reformulação de emendas parlamentares e da previdência dos militares.

Além disso, o economista destaca que o endividamento das famílias decorre também do elevado spread bancário — a diferença entre o custo de captação dos bancos e as taxas cobradas na ponta final. “Não é possível que qualquer plataforma consiga sair ofertando crédito a torto e a direito. Isso tem de mudar”, afirma Salto.

Credibilidade das regras e prêmio de risco

A eficácia do arcabouço fiscal vigente é objeto de análise sobre a percepção de risco de médio e longo prazo. Para Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, a falta de previsibilidade sobre a trajetória da dívida mantém os juros em patamares elevados.

“Hoje não existe uma previsibilidade crível de que teremos uma regra capaz de estabilizar a dívida. Isso gera um prêmio de risco muito grande na economia”, diz Ataliba. Segundo o pesquisador, a sinalização clara de reequilíbrio fiscal é a via para aliviar a renda das famílias e liberar recursos para investimentos produtivos.

Zeina Latif reforça que medidas estruturais, mesmo que não zerem a dívida de imediato, alteram as expectativas dos agentes financeiros. “Mostrar esse compromisso ajuda a reduzir a expectativa de inflação, a volatilidade cambial e a taxa de juros. A questão fiscal é central como alicerce”, pontua a economista.

Mercado de trabalho, produtividade e consumo

Apesar do desemprego reduzido no curto prazo, a perda de ritmo da atividade econômica tende a impactar as contratações ao longo de 2027. Para os analistas, o avanço sustentável do rendimento do trabalhador depende da elevação da produtividade, e não de estímulos temporários ao crédito.

“A gente só consegue aumentos reais de renda sem recorrer ao endividamento por meio do crescimento da produtividade. Sem isso, fica difícil atender às demandas da população”, avalia Ataliba, do FGV Ibre.

Latif defende a mudança do foco das políticas públicas. “Precisamos repensar essas medidas de estímulo ao consumo. Seria mais saudável o consumo acelerar em função das reformas, do ganho de produtividade se traduzindo em salários, e não de estímulos artificiais que geram estresse financeiro”, afirma.

Abertura comercial e ambiente global

No plano internacional, o próximo mandato enfrentará a volatilidade decorrente de conflitos no Oriente Médio e da adoção de barreiras tarifárias por grandes potências mundiais, como os Estados Unidos.

Felipe Salto defende a ampliação do comércio externo e a preservação do perfil diplomático brasileiro. “O desafio é manter a posição histórica plural e agregadora, buscando o crescimento via expansão das exportações líquidas e resgate da indústria sob novas agendas ambientais e tecnológicas”, observa.

Em relação à integração regional, Zeina Latif aponta a necessidade de modernizar as regras de negociação e simplificar entraves burocráticos.

Medidas sugeridas para a política externa:

  • Reformulação do Mercosul para permitir acordos bilaterais independentes;

  • Redução gradual de tarifas de importação;

  • Eliminação de barreiras não tarifárias e revisão de acordos contra a bitributação.

“Política comercial é algo em que estamos atrasados. Em um mundo com mais riscos, é importante acelerar a diversificação de parceiros comerciais”, conclui Latif.

Com informações da ContilNet

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