A 25 quilômetros de Rio Branco, um terreno que permaneceu abandonado por cerca de 17 anos está se transformando na esperança de moradia para mais de 130 famílias. O que era uma área marcada pelo mato alto, pelo acúmulo de lixo e pela insegurança, agora começa a ganhar forma de bairro. Batizado pelos próprios moradores de Chico Paulo 3, o local é apontado como o 21º bairro de Senador Guiomard, município com aproximadamente 22 mil habitantes e um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Acre.
A luta por um teto digno
A ocupação, segundo os relatos dos moradores, não é um ato isolado ou uma escolha fácil, mas sim uma resposta direta à realidade dura do déficit habitacional e dos preços dos aluguéis. “As pessoas ganham mal e o valor do aluguel está muito alto. Ninguém aqui está pedindo luxo. Vai sobrar mais dinheiro e as pessoas vão poder comer melhor”, explica Jhon Lenon, um dos representantes do movimento. A fala traduz a realidade de muitas dessas famílias, para quem pagar o aluguel significa comprometer a maior parte da renda, sacrificando necessidades básicas como a alimentação e a saúde.
O cenário do déficit habitacional
A situação vivida pelas famílias em Senador Guiomard reflete um problema estrutural em todo o estado. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o déficit habitacional no Acre chega a 30.893 moradias. No interior, a falta de opções de moradia popular e o encarecimento dos aluguéis agravam ainda mais o quadro. A ausência de políticas habitacionais eficazes empurra cada vez mais pessoas para situações extremas, como a ocupação de áreas particulares ou de risco.
Histórias de superação e esperança
Entre os ocupantes, há histórias que evidenciam a vulnerabilidade e a resiliência dessas famílias. Uma moradora, que preferiu não se identificar, relatou o drama de ter que escolher entre o remédio e a comida. “Essa semana tive que escolher ou comia ou comprava a pomada e optei pelo remédio”, contou. Portadora de psoríase, ela depende de injeções que custam cerca de R$ 1 mil e não são fornecidas pela rede pública. “A vida nos obriga a fazer escolhas e escolhi vir pra cá em busca de uma vida melhor”, desabafou.
Outra figura que chama a atenção é Dona Suzana, de 87 anos. Com a força que ainda lhe resta, ela limpa sozinha o lote onde sonha construir um pequeno abrigo. “Vejo todo mundo tendo sua casa e fico pensando: será que vou morrer sem ter onde cair? Deus queira que não”, disse. Ela conta que já se inscreveu em diversos programas habitacionais ao longo dos anos, mas nunca foi contemplada.
A busca por regularização
Diante da situação, os moradores do Chico Paulo 3 não querem apenas ocupar; eles buscam uma solução jurídica que garanta a permanência na área. A informação que circula entre as famílias é de que o antigo proprietário do terreno faleceu no ano passado e que os herdeiros não demonstraram interesse pelo imóvel. O movimento defende que a Prefeitura de Senador Guiomard possa atuar como intermediadora. “A prefeitura pode contribuir com uma indenização ao proprietário, ajudando a cidade a expandir e gerar empregos”, argumenta Jhon Lenon, defendendo uma saída negociada que transforme a ocupação em um bairro regularizado.
A esperança que se constrói a cada dia
Enquanto aguardam um posicionamento oficial do poder público municipal e uma definição sobre a situação fundiária, as famílias seguem trabalhando coletivamente para dar forma ao novo bairro. Com ferramentas simples e muita disposição, elas abrem ruas improvisadas, limpam os terrenos de entulho e mato e erguem os primeiros barracos de madeira e lona. Para cada uma delas, o Chico Paulo 3 representa muito mais do que um pedaço de chão. É a tentativa concreta e urgente de sair do aluguel, de ter um endereço fixo e de reconstruir a própria história com dignidade. O caso expõe a fragilidade social e acende um alerta para a necessidade de políticas públicas efetivas que garantam o direito fundamental à moradia.
Fonte: ContilNet Notícias
Redigido por Acre Atual







