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Homem começou a escrever há 40 mil anos? Artefato na Alemanha com marcas sequenciais muda teoria da comunicação

Estudo publicado na PNAS analisa estatueta de 40 mil anos da cultura aurignaciana e revela que marcas em objetos não são meramente decorativas.
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Uma estatueta chamada Adorante
Uma estatueta chamada Adorante, proveniente da Caverna Geissenkloesterle, localizada perto da cidade de Blaubeuren • Foto: Landesmuseum Wuerttemberg/Hendrik Zwietasch/Divulgação via REUTERS

A história da comunicação humana pode ser muito mais antiga do que se imaginava. Uma pesquisa publicada na prestigiada revista científica “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS) analisou artefatos de até 40 mil anos encontrados na Alemanha e chegou a uma conclusão surpreendente: os primeiros humanos que viveram na Europa já utilizavam um sistema de marcas com propriedades que antecedem a própria escrita. O estudo sugere que o homem começou a escrever há 40 mil anos revela uma capacidade cognitiva muito além do que se supunha para o período.

O Artefato e a Cultura Aurignaciana

A pesquisa se debruçou sobre mais de 200 objetos produzidos pela cultura aurignaciana, um dos primeiros grupos de Homo sapiens a estabelecer uma cultura distinta na Europa. Entre eles, destaca-se a estatueta conhecida como “Adorante”, descoberta em 1979 na Caverna Geissenklösterle, no sudoeste da Alemanha. Feita de marfim de mamute e com apenas 38 mm de comprimento, a figura representa uma criatura híbrida de leão e humano e apresenta sequências intrigantes de entalhes, pontos e linhas.

Os pesquisadores, liderados pelo linguista Christian Bentz, da Universidade do Sarre, analisaram esses sinais de forma computacional. O objetivo era verificar se eles tinham um significado ou se eram meramente decorativos. A conclusão foi inovadora. “Argumentamos que essas sequências de sinais vão além da mera decoração esteticamente agradável. Ou seja, nossos resultados estatísticos mostram que esses sinais foram aplicados de forma seletiva e convencional”, afirmou Bentz. Por exemplo, foi constatado que cruzes aparecem apenas em ferramentas e figuras de animais, mas não em representações humanas, indicando uma lógica subjacente.

Propriedades de Escrita e a Conexão com a Mesopotâmia

Embora os pesquisadores não afirmem que essas marcas constituam uma linguagem escrita no sentido moderno, elas apresentam uma característica crucial: a densidade de informação. Esse conceito mede a quantidade de informação transmitida por unidade de sinal. Surpreendentemente, as sequências aurignacianas exibem uma densidade de informação muito semelhante à dos primeiros exemplos do proto-cuneiforme, o precursor da escrita cuneiforme que surgiu na antiga Mesopotâmia por volta de 3300 a.C.

Isso sugere que, há 40 mil anos, esses caçadores-coletores já possuíam habilidades cognitivas notáveis, capazes de criar e transmitir convenções simbólicas ao longo de muitas gerações. “A convenção de esculpir certos tipos de sinais apenas nas superfícies de determinados artefatos deve ter sido transmitida ao longo de muitas gerações; caso contrário, não encontraríamos esses padrões estatísticos nos dados”, disse Bentz. A descoberta não decifra o significado dos sinais, mas prova que o impulso humano para registrar e comunicar informações de forma estruturada é muito mais antigo e profundo do que a história oficial da escrita registra, abrindo novas perguntas sobre a mente dos nossos ancestrais.

Fonte: CNN Brasil

Redigido por Acre Atual

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