Em um cenário global onde a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que 33% dos solos do mundo estão degradados, a busca por modelos de produção mais sustentáveis e resilientes se torna uma prioridade. Nesse contexto, a agricultura regenerativa desponta como uma estratégia promissora para o Brasil, um dos gigantes mundiais do agronegócio. Mais do que uma tendência, o modelo representa uma mudança de paradigma: em vez de explorar os recursos até o limite, a agricultura regenerativa busca restaurar a saúde do solo, da água e da biodiversidade, conciliando produtividade, viabilidade econômica e responsabilidade ambiental.
O que é e como funciona
A agricultura regenerativa diferencia-se do modelo convencional, que é mais dependente de insumos químicos, irrigação intensiva e revolvimento constante da terra. Ela coloca os processos biológicos no centro da produção, adotando práticas que imitam o funcionamento da natureza para fortalecer os ecossistemas agrícolas no longo prazo, como explica Carla Gheler, coordenadora técnica de sistemas agroalimentares do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável). As principais práticas incluem a rotação de culturas, o plantio direto (sem revolver a terra), o uso de insumos biológicos e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).
Princípios que guiam a prática
A aplicação da agricultura regenerativa é guiada por cinco princípios fundamentais, que buscam reproduzir os ciclos naturais e aumentar a eficiência dos sistemas produtivos:
- Minimizar o distúrbio do solo: reduzir o revolvimento para preservar sua estrutura e atividade biológica.
- Manter o solo sempre coberto: com plantas vivas ou resíduos vegetais, protegendo contra erosão e perda de umidade.
- Maximizar a biodiversidade: acima e abaixo da terra, por meio da rotação de culturas e da integração de sistemas.
- Manter raízes vivas ao longo do ano: garantindo um fluxo contínuo de carbono para o solo.
- Integrar animais sempre que possível: favorecendo a ciclagem de nutrientes e o equilíbrio ecológico.
Benefícios ambientais e econômicos
Os ganhos da agricultura regenerativa são múltiplos. Do ponto de vista ambiental, a adoção do modelo permite que a propriedade rural deixe de ser uma fonte de emissões e passe a capturar carbono da atmosfera, armazenando-o no solo na forma de matéria orgânica. O solo é o segundo maior reservatório de carbono do planeta. Além disso, práticas como a ILPF e o uso de bioinsumos contribuem para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Economicamente, o aumento da matéria orgânica no solo reduz a necessidade de insumos no médio e longo prazo, diminuindo os custos de produção. A diversificação de culturas e a menor dependência de insumos importados também tornam o produtor menos vulnerável à volatilidade de preços do mercado.
Oportunidades de negócios e empregos
O potencial da agricultura regenerativa vai além da porteira. Segundo o Fórum Econômico Mundial, a transição para esse modelo pode gerar até US$ 1,4 trilhão por ano em oportunidades de negócios e criar 62 milhões de empregos no mundo. Para o Brasil, a expansão da agricultura regenerativa pode alinhar a conservação ambiental com a competitividade internacional. Com os mercados globais cada vez mais exigentes em relação à comprovação de sustentabilidade, sistemas regenerativos apoiados por rastreabilidade e métricas confiáveis tendem a abrir portas para mercados diferenciados e instrumentos de financiamento verde.
Diferença para a agricultura orgânica
Embora frequentemente associadas, a agricultura regenerativa e a agricultura orgânica não são a mesma coisa. A orgânica se baseia na proibição do uso de insumos sintéticos. Já a regenerativa é orientada por resultados ecológicos, como o aumento da biodiversidade, o sequestro de carbono e a melhoria da estrutura do solo. Em contextos de transição, pode haver o uso pontual de insumos sintéticos, desde que o objetivo final seja a melhoria dos indicadores ambientais e funcionais do sistema.
Como iniciar a transição na propriedade
Para o produtor rural interessado em migrar para a agricultura regenerativa, o primeiro passo é realizar um diagnóstico detalhado da propriedade, avaliando os atributos físicos, químicos e biológicos do solo. É fundamental identificar problemas como camadas compactadas, que dificultam a passagem de água e nutrientes, para definir a melhor estratégia de correção. A transição pode começar com medidas práticas como a adoção de bioinsumos, a diversificação de culturas, a rotação de plantios e a implementação do plantio direto. Especialistas consultados, como Fernando Mendes Lamas, pesquisador da Embrapa, e Luís Fernando Guedes Pinto, da Fundação SOS Mata Atlântica, destacam a importância do acesso à extensão rural e do intercâmbio com produtores que já aplicam o modelo para ampliar a adoção e o sucesso da agricultura regenerativa no país.
Fonte: UOL ECOA
Redigido por Acre Atual







