A entrevista de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao jornal americano The New York Times, publicada nesta quinta-feira (5), ganhou repercussão pelas contradições entre as declarações do senador e as informações apresentadas pela própria reportagem. Durante 75 minutos de conversa com a jornalista Ana Ionova, em Miami, o candidato derrotado à Presidência negou ter recebido ajuda para deixar o Brasil, questionou o resultado das eleições e afirmou que teme ser preso.
O encontro havia sido anunciado com entusiasmo por aliados da família Bolsonaro. Na véspera, o comentarista Paulo Figueiredo afirmou nas redes sociais que seria “a entrevista que a Globo teve medo de fazer” e prometeu uma conversa “totalmente red pill”.
A reportagem publicada, porém, apresentou informações que contrariavam a versão de Flávio. O principal ponto foi a participação de autoridades americanas em sua viagem para os Estados Unidos, algo que o senador negou durante a entrevista.
Flávio negou ajuda dos EUA, mas jornal apresentou outra versão
Questionado sobre como conseguiu deixar o Brasil e chegar a Miami, depois de percorrer cerca de 8 mil quilômetros pela América do Sul, Flávio afirmou que organizou tudo sozinho, com a esposa.
“Foi tudo por minha conta”, declarou.
“Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo”, acrescentou.
Ao ser perguntado sobre os detalhes da viagem, o senador se recusou a explicar como conseguiu atravessar as fronteiras e embarcar para os Estados Unidos.
“Como cheguei aqui, vou levar isso para o túmulo comigo”, afirmou.
O próprio New York Times, no entanto, apresentou informações diferentes. Segundo autoridades americanas ouvidas pelo jornal, um funcionário da Casa Branca providenciou o avião particular que levou Flávio a Miami. Sua entrada nos Estados Unidos também teria sido autorizada diretamente pelo presidente Donald Trump.
A reportagem revelou ainda que um assessor próximo do presidente argentino Javier Milei encontrou o senador em um aeroporto durante sua passagem pelo país.
Flávio insistiu que não houve participação de governos estrangeiros.
“Pode ter havido torcida, mas nada além disso”, declarou.
A negativa contrasta com as informações atribuídas pelo jornal a autoridades americanas, embora o senador não tenha reconhecido qualquer contradição em seu relato.
O que Flávio contou sobre a conversa com Jair Bolsonaro?
Durante a entrevista, Flávio relatou os momentos que antecederam sua saída do Brasil, após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições, em 25 de outubro.
Segundo o senador, a decisão de deixar o país foi tomada depois que ele recebeu uma ordem judicial para entregar seus passaportes.
Flávio afirmou que estava saindo do condomínio onde Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar quando o pai o chamou para uma conversa reservada.
“Ele olhou nos meus olhos e disse: ‘Você já sabe aonde eles querem chegar com isso, não é?'”, contou.
O senador relatou que respondeu estar preparado para o que viria a acontecer.
“Pai, eu já sei. E estou preparado, sei o que tenho que fazer”, afirmou ter dito ao ex-presidente.
Em seguida, segundo seu relato, deixou o local.
“Virei as costas e fui embora”, acrescentou.
Flávio negou que a conversa tenha envolvido um plano de fuga. Disse que decidiu partir porque acreditava que acabaria preso caso permanecesse no Brasil.
“Já sei que o desfecho final será minha prisão”, declarou.
O senador é investigado em procedimentos relacionados a suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção, mas não havia sido formalmente acusado de nenhum crime nesses casos. Ele nega irregularidades e afirma ser vítima de perseguição política.
Flávio voltou a falar em fraude eleitoral, mas não apresentou provas
Outro ponto da entrevista foi a insistência de Flávio em questionar o resultado das eleições presidenciais.
O senador afirmou que a vitória de Lula seria “matematicamente impossível”, embora não tenha apresentado elementos que comprovassem manipulação dos votos.
O New York Times contextualizou a declaração e destacou que o próprio Partido Liberal, legenda de Flávio, reconheceu o resultado eleitoral.
O jornal também lembrou que as acusações de fraude nas urnas eletrônicas já haviam sido rejeitadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e que observadores internacionais atestaram a regularidade da votação.
Questionado sobre a falta de provas, Flávio reconheceu que suas afirmações se baseavam em suspeitas.
“Tenho minhas suspeitas”, declarou.
“Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado”, acrescentou.
Uma das principais reclamações do senador foi a prorrogação do horário de votação em determinadas seções eleitorais.
Flávio sugeriu que a medida poderia ter beneficiado Lula. A reportagem, porém, destacou que a extensão do horário havia sido solicitada pelas duas campanhas, diante de problemas provocados por chuvas e atrasos no transporte público.
Segundo levantamento citado pela imprensa, a prorrogação afetou aproximadamente 34 mil votos. Lula venceu a eleição por uma diferença de cerca de 4,4 milhões de votos, número muito superior ao total registrado no período adicional.
“Perdi para o sistema”, afirmou Flávio Bolsonaro
Embora tenha insistido nas acusações de fraude, o senador reconheceu durante a entrevista que dificilmente conseguirá reverter a vitória de Lula.
“Sei que isso não vai levar a lugar nenhum”, declarou ao comentar a possibilidade de contestar o resultado eleitoral.
Em seguida, resumiu sua interpretação da derrota:
“Perdi para o sistema.”
Flávio também criticou medidas econômicas adotadas pelo governo Lula durante a campanha e afirmou que o presidente teria sido beneficiado por gastos públicos e pela mobilização de apoiadores nas redes sociais.
O New York Times observou que, diferentemente do que ocorreu após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022, desta vez o resultado foi reconhecido por importantes lideranças da direita brasileira e por aliados internacionais do senador.
A reportagem também destacou que as manifestações contra o resultado eleitoral tiveram participação limitada.
Flávio agradeceu a Trump e falou sobre o futuro nos EUA
Apesar de negar ajuda de governos estrangeiros para deixar o Brasil, Flávio agradeceu ao presidente Donald Trump pela autorização para permanecer nos Estados Unidos.
O senador, a esposa e as duas filhas receberam uma autorização migratória que permite à família permanecer no país por pelo menos um ano.
Durante a entrevista, ele também comentou a decisão de Trump de não reconhecer formalmente sua alegação de vitória nas eleições brasileiras.
“Ele não tomou partido, o que é a coisa certa a fazer”, afirmou.
Flávio disse que ainda não decidiu onde a família vai morar e que espera que a mudança não seja definitiva.
“Vou precisar seguir minha vida a partir dos Estados Unidos, pelo menos por enquanto”, declarou.
O senador afirmou ainda que pretende continuar participando da política brasileira à distância, mantendo contato com aliados e defendendo suas propostas.
Ao ser questionado sobre uma eventual nova disputa presidencial, não descartou voltar a concorrer.
“Se houver novas eleições, obviamente serei candidato novamente”, afirmou.
A entrevista terminou por expor duas versões diferentes sobre a saída de Flávio do Brasil. Enquanto o senador insiste que organizou a viagem sem ajuda de governos estrangeiros, o New York Times atribui a autoridades americanas a informação de que a Casa Branca participou diretamente de sua chegada aos Estados Unidos.
As acusações de fraude eleitoral também foram acompanhadas de dados e informações que contrariavam os argumentos apresentados pelo senador.
Com informações da Notícias ao Minuto








