O Acre acordou nesta terça-feira, 3, com uma notícia difícil de digerir. Uma médica de 39 anos foi assassinada a tiros em Brasiléia, enquanto estava sentada em um estabelecimento comercial, acompanhada de outras pessoas.
As imagens são perturbadoras. Um homem chega usando capacete, aproxima-se e atira. Em segundos, uma vida é interrompida.
Elyne de Assis Nogueira não é apenas mais uma vítima, ela tinha uma profissão, uma história, uma família, amigos, sonhos e uma vida inteira que não cabem nas imagens de uma câmera de segurança e nem nas manchetes de jornais que hoje mostram mais uma vez a fragilidade do sistema de proteção às mulheres.
Segundo informações confirmadas pela Polícia Civil, Elyne já havia denunciado ameaças. Existiam dois boletins de ocorrência e uma medida protetiva contra um suspeito. Um dos registros, inclusive, tratava do descumprimento dessa ordem judicial.
Ela já havia procurado ajuda e mesmo assim, foi assassinada.
Ainda cabe à investigação esclarecer a autoria, a motivação e as circunstâncias do crime. Mas uma pergunta já precisa ser feita: o que falhou na proteção dessa mulher?
Não se trata de apontar culpados antes da apuração. Trata-se de reconhecer que uma medida protetiva não pode ser apenas um documento que determina que alguém mantenha distância. Ela precisa representar proteção real.
E essa discussão é especialmente urgente no Acre.
Em 2025, nosso estado registrou uma taxa de 3,2 feminicídios por 100 mil mulheres, a mais alta do Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Estamos falando de um estado pequeno, onde os números absolutos podem parecer modestos quando comparados aos de grandes centros, mas onde a violência contra as mulheres assume proporções assustadoras.
E o que mais me inquieta é pensar em quantas mulheres vivem hoje sob ameaça, quantas já denunciaram, quantas têm medo de sair de casa e quantas continuam dividindo o mesmo teto com alguém que as agride porque simplesmente não encontram uma saída segura.
Quantas precisam morrer para que a proteção deixe de ser uma promessa e passe a ser uma garantia?
É claro que existem leis, delegacias especializadas, medidas protetivas e profissionais comprometidos com o enfrentamento dessa violência.
Mas não basta criar mecanismos de proteção. É necessário avaliar se eles estão funcionando, especialmente quando uma mulher relata que as ameaças continuam mesmo depois de procurar as autoridades.
Uma denúncia precisa ser levada a sério. Uma ameaça precisa ser tratada com seriedade. O descumprimento de uma medida protetiva precisa acender um alerta.
Porque, quando uma mulher diz que tem medo de morrer, a resposta não pode chegar depois da morte.
Há ainda uma responsabilidade que não pertence apenas ao poder público.
Precisamos parar de naturalizar comportamentos de controle, perseguição, intimidação e violência. Precisamos abandonar a ideia de que ciúme excessivo é demonstração de amor, de que ameaças são apenas palavras ditas durante uma discussão ou de que determinados conflitos devem permanecer entre quatro paredes.
Não devem!!!
Violência contra a mulher não é assunto privado quando coloca uma vida em risco.
Hoje, uma família chora a morte de Elyne. Amigos perderam alguém querido. A sociedade perdeu uma profissional que dedicava sua vida ao cuidado de outras pessoas.
E nós, mais uma vez, estamos diante de uma notícia que não deveria se repetir com tamanha frequência.
Que a morte de Elyne seja investigada com rigor. Que todas as circunstâncias sejam esclarecidas. E que as autoridades expliquem, inclusive, quais providências foram adotadas diante das denúncias anteriores.
Hoje a coluna Sem Filtro é um grito de quem não admite que essas histórias se transformem em apenas mais uma manchete, mais um número, mais uma indignação que desaparece quando surge a próxima notícia.
No fim das contas precisamos saber: se uma mulher procura proteção e ainda assim acaba assassinada, o que estamos fazendo para proteger as próximas?
Com informações da Portal do Acre







