“Que quimera é, então, o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que motivo de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, (…) glória e escória do Universo.” — Pascal
Exclama interrogativamente Pascal: o ser humano, o ser contraditório, ambíguo, instável, dinâmico, superador e sofredor de si mesmo.
A imposição do homem na Terra gera, por ser dotado de uma consciência complexa e de um sistema nervoso extenso e delicado, a necessidade de alcançar a realização de seus projetos de vida, submetendo-se às leis da natureza e construindo o seu mundo cultural. O ser humano busca se desenvolver visando à sua adaptação externa, ou seja, àquela no mundo exterior, para superar as necessidades não supridas diretamente pela natureza, modelando o terreno à sua volta, a si mesmo e os outros ao seu redor. Esse processo adaptativo é elaborado sempre diante de uma necessidade, configurado por um obstáculo da natureza ou por carências. Em consequência do seu esforço, imaginação e perspicácia, surge o chamado mundo cultural, composto de tudo aquilo que ele constrói para satisfazer essas necessidades: as pontes, o metrô, um armário, uma canção, as crenças, os códigos, a linguagem etc. Somos, então, um produto da natureza e da cultura e, ao mesmo tempo, transformadores da natureza e da cultura. Criaturas e Criadores do mundo em que vivemos.
Essa consciência nos concedeu habilidades essenciais para nossa sobrevivência e comunicação, sendo fundamental para nossa formação e interação na Terra, tornando o ser humano um eterno caminhante destinado à procura e ao encontro da realidade, em que a estrada é feita de conflito e harmonia com o ser, o saber e o fazer, dimensões essenciais da existência humana. Porém, essa consciência que nos permitiu tornarmo-nos seres evoluídos e chegarmos ao topo da cadeia alimentar é a mesma que nos faz questionarmos sobre o sentido da vida e nos aflige diante da angústia de não sabermos o que somos, de onde viemos e para onde vamos. Surge assim, diante da nossa dúvida e incerteza ao nos depararmos com a profundidade da vida e dos fenômenos que não conseguimos explicar (a morte, a natureza, as doenças, os desejos, o nascimento, acontecimentos imprevisíveis etc.), a necessidade da busca e do encontro de algo maior que nós mesmos, que entregue sentido e resposta ao que não conseguimos compreender pela razão.
O historiador Yuval Noah Harari, no livro Uma Breve História da Humanidade, discute como as crenças humanas mudaram conforme os seres humanos passaram a dominar diferentes aspectos do ambiente. Há aproximadamente 300 mil a 12 mil anos, na época em que os humanos viviam como caçadores-coletores, a natureza tinha enorme poder sobre a vida humana e, por isso, as crenças tendiam a atribuir agência a animais, rios, árvores, fenômenos naturais etc. Conforme foram obtendo domínio sobre o ambiente na agricultura, os humanos passaram a depender de ciclos de chuva e colheitas, dando importância a deuses e sistemas religiosos relacionados à fertilidade, ao clima e à produção. Com o avanço da agricultura e do domínio sobre o fogo e as matérias-primas, o homem foi capaz de se estabelecer em um único lugar e realizar trocas comerciais com outros grupos e sociedades devido ao acúmulo da produção e da colheita, surgindo, assim, religiões mais estruturadas, com hierarquias, sacerdotes, deuses nacionais e narrativas capazes de unir grandes grupos. Já nas sociedades modernas, conforme a ciência e a tecnologia aumentam o controle humano sobre a natureza, algumas explicações sobrenaturais perdem espaço, enquanto surgem também sistemas de crenças não necessariamente religiosos, devido às relações de sociedades complexas estruturadas, como o liberalismo, o nacionalismo, o comunismo e outras “ordens imaginadas”, na terminologia de Harari. Através da obra de Harari, podemos perceber como as crenças espirituais dos povos evoluíram paralelamente à esfera do que era desconhecido e estava fora do domínio ou do entendimento para eles até então.
A fé surge, então, como alicerce sobre o qual se constrói a confiança no desconhecido, no sobrenatural, no Divino, em Deus, servindo como uma base sólida que sustenta o indivíduo em meio às dúvidas, dificuldades e incertezas. O significado da fé pode variar em diferentes crenças, mas todas têm o mesmo pressuposto de sustentar o ser em meio às calamidades, transcender a lógica, das pessoas crerem e confiarem em algo maior do que elas mesmas. Na Bíblia, diz-se, em Hebreus 11:1: “A fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver”. Aqui, define-se a fé como a certeza interior em relação às promessas de Deus, mesmo sem evidências visíveis ou tangíveis, enfatizando que a fé não é apenas acreditar em algo incerto, mas ter uma convicção firme que sustenta a esperança e aprova a realidade espiritual das coisas invisíveis.
A crença de determinado país desempenha um papel importante na identidade nacional, influenciando como as pessoas vivem, pensam e interpretam o mundo e a moral. Sendo considerada uma das formas mais poderosas de controle social, ajuda a criar coesão social, fortalecendo os vínculos entre os membros da sociedade e modulando os comportamentos econômicos, sociais e culturais. Entretanto, sabemos que, ao longo da história, a religião esteve envolvida em decisões políticas, conflitos, guerras e genocídios, tendo influência direta nos rumos que nos trouxeram aos dias de hoje. A história da humanidade foi construída através de guerras de interesses, sejam eles econômicos, territoriais ou étnicos, e não é segredo que, em diversos acontecimentos históricos, a religião foi instrumentalizada para legitimar ou justificar atos abomináveis (como a escravidão e vários genocídios, por exemplo) para que não manchasse a moral de determinada nação. Analisando esses fatos, podemos compreender o resultado que se obtém quando a religião é usada por sujeitos mal-intencionados como ferramenta de manipulação na construção ou distorção de uma narrativa, por ter forte influência na formação dos comportamentos e pensamentos de seus seguidores.
O Brasil é um país marcado fortemente pela crença na fé, possuindo uma grande diversidade religiosa com o encontro de diferentes culturas e tradições, como as religiões de matrizes africanas, as religiões indígenas, o sincretismo religioso (que combina elementos de várias religiões) e correntes ocidentais tradicionais trazidas pelos colonizadores, como o cristianismo, que abrange 80% da população. O brasileiro é tradicionalmente reconhecido como um indivíduo de muita fé e esperança, o que se justifica pela incidência de várias crenças religiosas, e isso é representado culturalmente, seja através da música, do esporte, da maneira de se expressar, do senso comum etc.
Assim como vimos que as crenças evoluíram conforme a evolução do domínio do homem sobre a Terra, elas também evoluíram conforme certos interesses econômicos e sociais idealizados pelo homem. O Sociólogo alemão Max Weber investiga, através de sua obra de 1904, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, a interação entre ideias religiosas e condições socioeconômicas, buscando responder por que o capitalismo moderno assumiu determinadas características no Ocidente e qual foi o papel das ideias religiosas na formação desse modo de vida. Max, aqui, não procura descobrir a origem do capitalismo, mas entender como a crença transforma a maneira como as pessoas vivem, trabalham, consomem e enxergam a sua própria existência. Ele argumenta que certos valores do protestantismo, especialmente do calvinismo, favoreceram o desenvolvimento do capitalismo moderno ao promover uma ética de trabalho disciplinada e racional. A característica que lhe interessa é uma determinada mentalidade econômica, mentalidade que não se justifica apenas por ganância, visto que a ganância por riqueza existe praticamente em todas as sociedades. Mas sim uma mentalidade que determina que tempo é dinheiro, trabalho é dever (uma tarefa que Deus atribuiu ao indivíduo) e que a ascensão econômica é sinal de bênção divina. A propagação desse modo de enxergar o mundo influenciou as relações socioeconômicas, fortalecendo a valorização individualista do acúmulo de capital nas áreas em que se tinha a propagação dessa crença.
Alinhada a essas correntes fundamentalistas do cristianismo protestante, especialmente neopentecostais, na década de 1970, nos EUA, surge o aparecimento das Teologias da Prosperidade e do Domínio. O Evangelho da Prosperidade sustenta que a abundância material e a saúde são a vontade de Deus para os cristãos e que a fé ativa essas bênçãos através de palavras de confissão positiva, oração perseverante e ofertas generosas. A doutrina interpreta a Bíblia como um contrato entre Deus e os humanos: se houver fé, Deus cumprirá Suas promessas de prosperidade. Por esse novo entendimento da Palavra, essa corrente tem sofrido várias críticas por transformar a fé em uma troca comercial, em que bênçãos são vistas como recompensas merecidas por doações ou atos de fé. A Teologia do Domínio defende que os cristãos, se querem transformar a sociedade, devem exercer autoridade sociopolítica sobre ela, influenciando cultura, governo e instituições, com base em leituras escatológicas e ideológicas. Essas doutrinas foram reproduzidas, com atuação e influência dos EUA, aqui no Brasil no final da década de 1970, e atualmente é notório como elas se apresentam na estrutura e interpretação das relações, inclusive na política.
A disputa política não acontece apenas nas urnas, mas também na disputa pela consciência das pessoas. E, no Brasil, essa disputa encontrou uma aliança poderosa entre setores do evangelicalismo político e o ambiente fértil do “Bolsonarismo”, visto que disputar a consciência das pessoas não é o suficiente, mas, sim, buscar o domínio das estruturas. É cada vez mais evidente a ascensão de políticos com discursos populistas, fomentando, muitas vezes, o preconceito e o ódio travestidos de estar cumprindo a “vontade divina”, em que, ao invés de a política ser apresentada como uma democracia, é declarada como uma guerra entre os “fiéis” contra os “inimigos de Deus”. É perceptível que essa parcela considerável da classe política utiliza como instrumento a palavra de “Deus”, conforme convém, com a finalidade de conquistar os próprios interesses, transformando a fé alheia em ferramenta, mero utensílio para atingir um fim.
É um tanto quanto controverso que os propagadores e seguidores dessa ideologia política, que se autointitulam conservadores dos “bons costumes”, dos “princípios cristãos”, da “família”, “da liberdade”, e da “pátria”, sejam os mesmos que idolatram políticos que têm a carreira marcada por corrupções, falas preconceituosas e de cunho sexual bem “questionáveis”; criticam a cultura brasileira enquanto batem palmas para o produto cultural “americanizado” e fazem continência para a bandeira americana, além de idolatrarem presidentes de outros países que financiam e cometem genocídios, com um deles sendo acusado da forma mais nojenta e repugnante de pedofilia. Isso não me parece algo tão compatível com aquilo que julgam conservar. É perceptível que tais ideologias legalizam a disseminação de ódio a grupos de pessoas historicamente excluídos, que necessitam de proteção jurídica especial, e que, por isso, muitos se identificam com esse discurso, encontrando nele a oportunidade de legitimar a sua própria repulsa a elas. Mas, então, mesmo diante dessa narrativa controversa, o que justificaria o crescimento dela nos últimos anos?
Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud desenvolvendo como indivíduos ao integrarem multidões perdem parte de sua autonomia psíquica e passam a agir segundo uma “alma coletiva”, explica como a formação de comportamentos coletivos provoca a perda da responsabilidade individual. Os indivíduos da massa passam a se identificar uns com os outros, especialmente por terem uma relação em comum com uma figura ou ideia central — aquilo que Freud relaciona à figura do líder. O sujeito passa a experimentar algo como “eu sou parte de nós”. Esse sentimento causa uma sensação de poder, já que a ideia compartilhada está acompanhada de muitos, o que faz o sujeito se sentir forte e menos vulnerável. A filosofia hegeliana já nos traz a ideia de que o indivíduo só se constitui plenamente por meio do reconhecimento. Hegel diz que é justamente através de determinadas relações sociais que o indivíduo pode adquirir uma identidade e uma liberdade concreta.
E o que torna esse fenômeno algo tão perigoso no cenário político e social atual? Quando indivíduos são influenciados por esse contágio emocional e pela busca pelo pertencimento, um dos seus sintomas é a terceirização do pensamento, ou seja, as pessoas deixam de examinar as suas próprias escolhas e percepções criticamente, ao passo que repassam essa responsabilidade àquele líder ou grupo influenciado diretamente por ele na formação de seus comportamentos e pensamentos. Isso nos ajuda a entender por que, mesmo quando políticos, líderes religiosos e membros de instituições são desmascarados por seus atos corruptos, sujos ou fraudulentos, há quem os defenda com tamanha disposição, pois ir contra o representante ou aliado daquele “líder” ou grupo se torna ir contra a própria identidade, entrando, assim, num lapso de dissonância cognitiva, em que o sujeito, muitas vezes cego pelo ódio ou pela força de influência do “rebanho”, se torna incapaz de realizar uma análise crítica dos fatos como realmente são, o que já é difícil devido à quantidade de “fake news” que são divulgadas.
A tática mais eficaz para se obter domínio do povo é colocá-lo contra ele mesmo, dividindo-o, com ambas as partes enxergando o outro lado como menos humano, menos merecedor, como a democracia em uma batalha do “bem” contra o “mal”. Apesar dessa infeliz polarização, a necessidade de pôr alimento na mesa, de garantir uma educação de qualidade para o seu filho, da conquista de um emprego cujo salário permita e de ter um membro da sua família atendido com dignidade em qualquer instituição pública deveria ser efetivamente um direito garantido para todos, porque é do interesse mínimo de todos, independentemente de suas diferenças. O Brasil enfrenta atualmente vários problemas estruturais que advêm do processo colonizatório, juntamente com diversas tomadas de decisões que buscaram enriquecer apenas uma pequena parte da população, negligenciando o desenvolvimento da sua maior riqueza — seu povo. Idolatrar e apostar em representantes que representam culturalmente tudo aquilo que não permitiu ao Brasil ser hoje um país desenvolvido demonstra tremenda falta de conhecimento e ignorância quanto à história do próprio país.
O filósofo Santayana já nos alertava do risco de não ser esclarecido sobre: “Quem não conhece a própria história está fadado a repeti-la”. Juntamente, Paulo Freire afirma que esse desconhecimento não acontece por acaso: “Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitisse às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica…” Certamente, podemos evidenciar então, que é a partir da alienação do povo que tomamos controle de sua consciência, tornando-o maleável e potencialmente apto a ser manipulado por narrativas cujo intuito por trás é a busca de sua dominação. Isso explica por que vemos pessoas tomando partido por ideias que favorecem as classes a qual elas mesmas são submissas e exploradas, ideias essas que muitas das vezes corroboram para a perda de seus direitos e garantias, assim como a perda da contínua progressão desses direitos. Portanto, é de extrema importância a valorização de uma educação emancipadora, que vise promover a autonomia, a liberdade e o pensamento crítico dos indivíduos, preparando-os para atuar de forma consciente e transformadora na sociedade, pois é a geração que está por vir que futuramente estabelecerá a ordem e o progresso participando de forma efetiva na sociedade. Diante disso, o projeto necessário para o Brasil hoje, é aquele que proporcione alternativas que promovam o bem-estar social e o desenvolvimento nacional. E então, somente assim, poderemos alcançar o patamar de sociedade que almejamos quando pensamos em um Brasil desenvolvido.
Como dizia Platão: “Aquele que ama o Saber, não tem o desejo de Poder”
Gabriel de Castro Trindade (Estudante Universitário de Direto)
Conteúdo Original / Fonte: Ascom
Com informações da ContilNet







