Ao longo das últimas semanas de campanha de Flávio Bolsonaro (PL) tem investido em referências religiosas em seus discursos ao defender que está preparado para assumir o comando do Planalto e ao associar sua trajetória política a um suposto “propósito” de Deus para o Brasil.
O tom aparece tanto em declarações sobre a própria fé quanto na aproximação com lideranças religiosas. Flávio tem se reunido de forma frequente especialmente com pastores e representantes evangélicos e passou a incorporar expressões como “Deus me honrar”, “propósito” e “Deus está me preparando” ao falar sobre sua candidatura.
Em agenda em Recife, Pernambuco, na última quarta-feira (16), ao prometer mudanças na composição do STF (Supremo Tribunal Federal), Flávio afirmou: “Se Deus me honrar, e vai honrar, nós vamos poder colocar, se não quatro, mas cinco ministros no STF, já contando com Alexandre de Moraes fora”.
Na mesma fala, voltou a criticar os ministros indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a defender que eventuais novas indicações tenham um perfil alinhado às suas posições conservadoras.
No dia seguinte, quinta-feira (17), durante uma transmissão ao vivo, Flávio associou sua candidatura a uma dimensão religiosa. “Também creio que Deus tenha um propósito pra nossa nação”, afirmou. Ele ainda usou expressões como “joelho no chão”.
Na mesma transmissão, Flávio afirmou que “Deus usa as pessoas” para transformar a vida de outras. O candidato também voltou a dizer que está “mais do que preparado” para ser presidente e citou sua trajetória política e a influência que teve, direta ou indiretamente, nas decisões do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Ao explicar por que considera estar preparado para ocupar o Planalto, Flávio usou novamente uma frase de tom religioso: “Olho para trás hoje e percebo que Deus está me preparando há 24 anos para ser presidente do Brasil”.
A aproximação com o eleitorado religioso não é de agora. Como primeiro ato público após ser anunciado o escolhido pelo pai a disputar a Presidência, Flávio foi a um culto da igreja Comunidade das Nações, em Brasília, no final do ano passado.
As conversas com lideranças religiosas continuaram ao longo dos meses, inclusive com católicos. No final de junho, ainda na pré-campanha, Flávio participou de uma romaria em Trindade, Goiás, e foi recebido no Santuário Basílica do Divino Pai Eterno.
Flávio já foi a diversos cultos e demonstra manter contato com lideranças de grandes denominações evangélicas, como Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo), André Valadão (Igreja Batista da Lagoinha) e Valdemiro Santiago (Igreja Mundial do Poder de Deus).
Quando em Maceió para agenda de campanha, no final de agosto, Flávio passou por um culto da Assembleia de Deus. Já no ato realizado pela direita na Avenida Paulista, em São Paulo, em 7 de setembro, por exemplo, estiveram presentes a bispa Sônia Hernandes e o apóstolo Estevam Hernandes, líderes da Igreja Renascer em Cristo, além de Silas Malafaia.
Na ocasião, Fernanda Bolsonaro, esposa de Flávio, fez um breve discurso e citou uma passagem bíblica do livro de Isaías.
A aproximação tem forte presença entre denominações pentecostais, que concentram parcela expressiva do eleitorado evangélico. No entanto, Flávio também procura dialogar com outros segmentos protestantes. Um exemplo é ressaltar o trabalho do pastor presbiteriano André Mendonça como ministro do Supremo, indicado por Jair Bolsonaro.
Em falas a apoiadores, Flávio já declarou que mudou bastante de postura após se converter, em outubro de 2022, e que não será um presidente vingativo, se eleito.
“Me apego muito à fé, de verdade, pra isso ficar mais leve”, afirmou, ao comentar desafios ao longo da candidatura ao Planalto.
Flávio também relatou que, na véspera de visitar o pai para definir quem seria seu sucessor na disputa presidencial, conversou, ao lado de Fernanda, com uma “profeta americana”, com quem já costumam se consultar.
“E falei, ‘olha, vamos orar aqui, porque amanhã vou visitar meu pai e o que sair da boca dele, vou entender que é Deus dando uma sinalização’. Ele estava na Polícia Federal”, contou.
Madrasta de Flávio, Michelle Bolsonaro (PL) se tornou uma peça importante para a direita entre o eleitorado evangélico. Ambos afirmam terem feito as pazes após as discussões públicas por discordâncias políticas. No entanto, fora vídeos nas redes sociais ou inserções na propaganda eleitoral, ela não tem participado ativamente de agendas da campanha dele.
O segmento religioso é particularmente relevante para a candidatura de Flávio. Em pesquisa Datafolha divulgada em 17 de setembro, Flávio aparece com 60% das intenções de voto entre evangélicos em um eventual segundo turno contra Lula, que registra 32% nesse segmento — diferença de 28 pontos percentuais. Entre católicos, o cenário se inverte: Lula tem 51%, contra 39% de Flávio.







