Fármacos sem registro na Anvisa importados da Ásia eram repassados a pacientes por valores superfaturados/ Foto: Reprodução
Uma rede criminosa composta por empresários, médicos, advogados e servidores públicos é alvo de investigações da Polícia Civil por articular esquemas de fraude em licitações, superfaturamento e suspeita de adulteração em medicamentos de alto custo destinados ao tratamento de pacientes com câncer. O grupo atuava em ao menos quatro estados: Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul e Ceará.
No Rio Grande do Sul, as apurações da Operação Placebo culminaram no cumprimento de 56 mandados de busca e apreensão no fim de junho. O principal alvo, o empresário e distribuidor de remédios Lisandro Henriques Hermes, foi preso em flagrante após a localização de dezenas de caixas com indícios de alteração na embalagem.
“Ele relata que era para destruição. No entanto, aqueles medicamentos encontrados lá não tinham nenhuma identificação, de modo que ele poderia imprimir na cartela o que quisesse”, afirmou o delegado Daniel Severo.
A suspeita teve início na Santa Casa de Caridade de São Gabriel (RS), onde funcionários do setor de oncologia desconfiaram de um lote e acionaram as autoridades. A própria fabricante confirmou a falsificação de amostras que apresentavam erros de grafia, divergências de cor e bulas em idiomas estrangeiros.
O esquema envolvia a indicação de advogados por parte de médicos a pacientes que necessitavam de fármacos fora da cobertura do Sistema Único de Saúde (SUS). Em São Gabriel, o médico Fernando Borges da Silva receitava os itens e encaminhava as famílias a defensores parceiros para ingressar com ações judiciais contra o Estado.
Segundo a polícia, as cotações anexadas aos processos eram direcionadas a empresas ligadas a Lisandro Hermes, por meio de laranjas ou ex-sócios, garantindo a vitória nas disputas.
Com a apreensão do lote falsificado, pacientes enfrentaram interrupções em suas terapias. Maria Jupira, de 57 anos, que tratava um câncer de pulmão, ficou dois meses sem medicação adequada e morreu posteriormente. Já a paciente Mara Rodrigues relata ter ficado sem resposta após o médico alegar ineficácia do remédio e sugerir nova ação na Justiça.
Em nota, a Santa Casa de São Gabriel informou que o hospital não é investigado e que suspendeu o médico, que agora cumpre proibição judicial de exercer a medicina.
Atuações vinculadas ao grupo foram identificadas em outros estados:
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Paraná: Em Cascavel, a empresa associada ao grupo venceu a licitação para fornecer medicação a uma criança de 12 anos com neuroblastoma. A polícia apurou o desvio de R$ 2,5 milhões repassados pelo governo estadual sem a entrega integral das doses. A paciente morreu em fevereiro. Lisandro e um sócio foram condenados por estelionato no estado.
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Mato Grosso do Sul: A Defensoria Pública constatou que ordens judiciais de compra eram desviadas por dois servidores da Secretaria Estadual de Saúde para farmácias de bairro. Os estabelecimentos importavam produtos sem registro na Anvisa fabricados em países como Índia, China, Paquistão e Turquia a custos irrisórios.
No caso sul-mato-grossense, remédios orçados em R$ 100 mil na ação custavam cerca de R$ 1.200 na origem, gerando margens de superfaturamento. Dados da Receita Federal apontam que as empresas envolvidas movimentaram mais de R$ 70 milhões entre 2021 e 2025. Os servidores estaduais envolvidos foram afastados.
A defesa do médico Fernando Borges da Silva negou a prática de atos ilícitos e afirmou que ele permanece à disposição das autoridades. A defesa do empresário Lisandro Hermes declarou que seu cliente é inocente.







