Entidade lançou o Observatório das Eleições para tentar levar ao debate eleitoral mais de uma centena de propostas de políticas públicas consideradas estratégicas. — Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
A ciência ainda não entrou no centro do debate das Eleições Gerais de 2026, apesar de temas como mudanças climáticas, novas crises sanitárias, inteligência artificial e exploração de minerais críticos estarem diretamente ligados ao futuro do país. O alerta é da presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, que aponta um esvaziamento das discussões sobre políticas de longo prazo em meio à crise político-institucional e às disputas que dominam a campanha.
Em entrevista à Agência Brasil, a pesquisadora afirmou que os eleitores e candidatos estão sendo colocados diante de uma falsa escolha entre discutir a integridade das instituições e apresentar um projeto de desenvolvimento para o país. Para ela, os dois temas deveriam fazer parte da mesma agenda.
“A ciência brasileira ainda não entrou nessa campanha”, afirmou Francilene.
Segundo a presidente da SBPC, a entidade lançou o Observatório das Eleições para tentar levar ao debate eleitoral mais de uma centena de propostas de políticas públicas consideradas estratégicas para o desenvolvimento nacional. Entre os assuntos estão os impactos das mudanças climáticas nas cidades, o risco de novas pandemias, a transformação digital e a exploração de terras raras.
Francilene afirma que, até o momento, pouco mais de uma centena de candidaturas aderiram às propostas do observatório. Apenas uma candidatura de âmbito federal havia se comprometido com a agenda, enquanto nenhum candidato a governador havia assumido compromisso com as propostas apresentadas pela entidade.
Temas estratégicos
Para a pesquisadora, a ausência da ciência no debate eleitoral ocorre em um momento em que o Brasil precisa tomar decisões sobre questões que terão impacto nas próximas décadas.
Entre elas está a exploração de minerais críticos e terras raras, considerados importantes para setores ligados à transformação digital e à indústria. A presidente da SBPC também cita os efeitos do aquecimento global sobre os biomas brasileiros e a necessidade de preparar o país para novos eventos climáticos extremos.
A preparação para uma eventual nova pandemia também é apontada como uma questão que deveria estar presente nas campanhas. Francilene defende que o Brasil discuta a capacidade de resposta do Sistema Único de Saúde (SUS), a manutenção das imunizações e estratégias para enfrentar a resistência de parte da população às vacinas.
Outro ponto destacado é o avanço da inteligência artificial e seus efeitos sobre a economia e a sociedade. Para a presidente da SBPC, o país precisa discutir que tipo de soberania tecnológica pretende construir na próxima década.
Envelhecimento da população
O envelhecimento populacional também aparece entre as preocupações da entidade. Francilene chama atenção para a perspectiva de que, em pouco mais de uma década, o Brasil poderá ter mais pessoas com 60 anos ou mais do que pessoas em idade produtiva.
A mudança demográfica, segundo ela, exige que o país pense desde já em sua capacidade de produzir tecnologia, conhecimento e inovação para garantir autonomia econômica e social.
A pesquisadora questiona ainda se o Brasil pretende manter um modelo baseado principalmente na exportação de matérias-primas ou se buscará ampliar sua capacidade de transformar recursos naturais em produtos de maior valor agregado.
Para a SBPC, essas escolhas deveriam estar presentes na campanha eleitoral justamente porque terão efeitos que ultrapassam o próximo mandato.
Crise política
Francilene reconhece que as denúncias e a crise institucional em curso precisam ser acompanhadas, mas afirma que a fiscalização das instituições não deveria impedir a discussão sobre projetos para o futuro do país.
Segundo ela, a entidade defende que investigações sigam os procedimentos previstos na Constituição, com respeito ao direito de defesa e aos prazos legais. O problema, avalia, é quando disputas de versões e vazamentos passam a ocupar praticamente todo o debate público.
“Integridade das instituições” e “projeto de desenvolvimento”, na avaliação da presidente da SBPC, não são agendas concorrentes. Para ela, ambas precisam avançar simultaneamente.
Conteúdo Original / Fonte: Agência Brasil







