El Niño ficou 40% mais forte nas últimas quatro décadas

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El Niño ficou quase 40% mais forte nas últimas quatro décadas

Corais das Ilhas Galápagos foram usados como biomarcadores – (crédito: Greg Asner/Divulgação )

Nas últimas quatro décadas, o fenômeno El Niño tornou-se quase 40% mais forte, comparado à era pré-industrial, no século 19. Segundo um estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, as mudanças climáticas recentes têm amplificado uma das fontes mais importantes de eventos meteorológicos extremos no mundo, com riscos significativos de secas, inundações e incêndios florestais, além de impactos na agricultura e na saúde humana.
No Pacífico, enquanto fortes chuvas deslocam-se para a porção central, a zona ocidental sofre com a seca. Essas flutuações não ficam restritas ao maior oceano do mundo, mas afetam o clima em todo o planeta.

Para entender as variações na intensidade do El Niño, os pesquisadores usaram uma espécie de biomarcador climático: amostras de corais. Foram coletados 13 nas Ilhas Galápagos, incluindo colônias vivas e blocos fósseis. Por ano, esses pequenos invertebrados crescem de 1cm a 2cm, secretando camadas de carbonato de cálcio. A composição química do material fornece um dos registros mais confiáveis da temperatura da água do mar. A ilha do Equador foi escolhida porque é onde o El Niño tem seu maior impacto.

Além de observar que os eventos aumentaram de intensidade recentemente, os cientistas calculam que, nas últimas quatro décadas, o El Niño foi mais forte do que qualquer um dos mil anos anteriores a 1850. Em meados do século 19, a industrialização começou a impactar o clima, com a emissão de gases de efeito estufa.

“Não vemos um período no passado em que o El Niño tenha sido tão forte quanto hoje. A intensidade do El Niño muda em paralelo com o aquecimento da temperatura global”, disse a autora principal, Julia Cole, do Departamento de Ciências da Terra e do Meio Ambiente da Universidade de Miami. “Nossas descobertas indicam que os grandes eventos dos últimos 40 anos não são normais no contexto dos últimos mil anos.”

Os cientistas também investigaram se a intensificação do El Niño pode ser atribuída a processos naturais. Para isso, usaram modelos climáticos que simulam os últimos mil anos, com base em históricos de erupções vulcânicas e variabilidade solar. Não foram encontradas alterações significativas em um período de 100 séculos, indicando que as mudanças no padrão do evento não deveriam acontecer sem um fator de perturbação não natural. No caso, o calor provocado por atividades humanas, como a exploração de combustíveis fósseis e o desmatamento.

“Acreditamos que o aquecimento global está intensificando o El Niño e, se isso for verdade, esperamos extremos climáticos mais fortes que amplificarão as perdas ecológicas, de infraestrutura e humanas”, afirmou Cole. “Nenhum país tem recursos suficientes para se proteger completamente desses impactos. Essa é mais uma razão pela qual precisamos abandonar os combustíveis fósseis, a causa principal do problema.”

Além de desastres naturais, perdas econômicas e impactos em ecossistemas, Elena Naumova, cientista de dados da Universidade de Tufts, que não participou do estudo publicado na Science, destaca que a intensificação do El Niño é acompanhada por problemas crescentes de saúde pública. “Minha preocupação é que o El Niño seja mais do que um evento climático — ele pode se tornar rapidamente um desafio para a saúde”, afirma.

Segundo Naumova, ao alterar os padrões de chuva, temperatura e clima extremo, o El Niño pode aumentar os riscos de doenças infecciosas, contaminação de alimentos, escassez de água, desnutrição e doenças relacionadas ao calor. “Seus efeitos se propagam pelos sistemas alimentares, sistemas de saúde e comunidades, especialmente onde a infraestrutura e os recursos de saúde pública já estão sobrecarregados.”

Conteúdo Original / Fonte: Correio Braziliense

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